Ativos de CampoJULHO / 2026

Custos de Produção Desafiam a Rentabilidade da Cana no Centro Sul

Análise econômica dos levantamentos do Projeto Campo Futuro — Safra 2026/27


Projeto Campo Futuro

Monitoramento econômico e gerencial das principais cadeias produtivas do agronegócio brasileiro.

CNA / Senar

Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil · Serviço Nacional de Aprendizagem Rural.

Safra 2026/27: Cenário de Mercado e Pressão sobre as Margens


Para a Safra 2026/27, a expectativa é de aumento na moagem de cana em relação à safra anterior. A recuperação esperada da produção amplia a disponibilidade de matéria-prima e tende a intensificar a disputa por margens ao longo da cadeia sucroenergética.

No mercado de etanol, o aumento da moagem e a expansão da oferta de etanol de milho podem limitar movimentos de valorização do produto. A formação dos preços, contudo, continuará condicionada à demanda doméstica, à competitividade do hidratado frente à gasolina, política tributária, ao comportamento do petróleo e às decisões de mix das unidades produtoras.

No mercado de açúcar, esta safra tende a enfrentar um ambiente de maior oferta global e preços mais moderados. Nesse contexto, as unidades produtoras deverão ajustar a destinação da matéria-prima entre açúcar e etanol de acordo com a remuneração relativa dos produtos, o câmbio, as condições do mercado internacional, os preços dos combustíveis e a demanda interna.

Mercado de Etanol

Expansão da oferta de etanol de milho e aumento da moagem podem limitar valorização do produto. Preços condicionados à demanda doméstica, tributação e ao comportamento do petróleo.

Mercado de Açúcar

Ambiente de maior oferta global e preços mais moderados. Unidades produtoras deverão ajustar o mix açúcar/etanol conforme câmbio e remuneração relativa dos produtos.

Pressão sobre Margens

O custo total médio registrado nas regiões acompanhadas pelo Projeto Campo Futuro até junho foi de R$ 162 por tonelada de cana produzida, evidenciando forte pressão sobre as margens.

Dados Campo Futuro

Custo Total versus Receita: Resultados dos Levantamentos até Junho


No campo, a média do CT (Custo Total) registrado nas regiões acompanhadas pelo Projeto Campo Futuro até junho foi de R$ 162 por tonelada de cana produzida. A pressão sobre as margens foi observada de forma mais intensa em algumas regiões que decorreu da combinação de custos operacionais elevados, arrendamentos, preços dos insumos e menor remuneração do ATR.

Mesmo com níveis razoáveis de produtividade nas praças avaliadas, o custo total de produção superou a receita em sete dos oito levantamentos realizados até junho. O resultado evidencia que uma produtividade agrícola satisfatória, isoladamente, não garante rentabilidade quando os custos permanecem elevados e o valor recebido pela matéria-prima é insuficiente para remunerar a atividade.

Gráfico 1: Receita e o Custo Total da cana-de-açúcar por região

Fonte: Projeto Campo Futuro CNA/Senar. Elaboração: Pecege/CNA.

Análise Regional

Diferenças Regionais: Produtividade, ATR e Estrutura de Custos


Os dados comparativos das regiões de Araraquara, Barretos, Batatais, Cianorte, Nova Alvorada do Sul, Nova Olímpia, Penápolis e Pirassununga mostram diferenças relevantes no cenário econômico. A produtividade média foi de 81 toneladas/ha, com ATR médio de 127 kg/tonelada e preço médio do ATR de R$ 1,0709/kg. Esses parâmetros formam a base da receita, mas não explicam sozinhos a rentabilidade, que depende principalmente da relação entre receita e custo total.

O custo total é o principal fator de pressão competitiva. As praças de Barretos, Araraquara, Nova Alvorada do Sul e Cianorte estão acima ou muito próximas da média de R$ 162 por tonelada, com destaque para Barretos, R$ 198/tonelada, e Araraquara, R$ 184,34/tonelada. Nesses casos, mesmo receitas relativamente favoráveis não são suficientes para cobrir todos os custos econômicos da produção.

A decomposição dos custos reforça a diferença estrutural entre regiões. O COE (Custo Operacional Efetivo) médio foi de R$77/tonelada, variando de R$ 43/t em Penápolis a R$ 132/t em Nova Alvorada do Sul. Essa amplitude sugere diferentes níveis de desembolso direto, tecnologia, escala operacional, arrendamento, logística, tratos culturais e eficiência no uso de insumos e máquinas.

81t/ha

Produtividade Média

Produtividade média das praças avaliadas nos levantamentos até junho

127kg/t

ATR Médio

Teor médio de Açúcar Total Recuperável por tonelada de cana nas regiões avaliadas

R$162/t

Custo Total Médio

Custo Total médio por tonelada de cana registrado nas regiões acompanhadas pelo Campo Futuro

R$77/t

COE Médio

Custo Operacional Efetivo médio, variando de R$43/t em Penápolis a R$132/t em Nova Alvorada do Sul

Considerando a receita média de R$ 130 por tonelada e o custo total médio de R$ 162 por tonelada, Nova Olímpia ocupa a posição mais favorável, apresentando uma receita acima da média, CT abaixo da receita e lucro. Penápolis e Batatais mantêm custos relativamente controlados, mas receitas insuficientes para remunerar integralmente terra e capital. Cianorte combina receita acima da média com custo próximo ao referencial, enquanto Barretos, Araraquara e Nova Alvorada do Sul apresentam os maiores desequilíbrios entre receita e custo. Pirassununga possui baixo desembolso operacional, mas custo econômico elevado pela participação da terra e do capital.

As margens confirmam que a análise não deve se restringir à margem bruta. Araraquara tem margem bruta positiva de R$ 54,45/tonelada, mas margem líquida negativa de R$ 7,93/tonelada e prejuízo de R$ 58,34/tonelada. Barretos tem margem líquida positiva de R$ 10,39/tonelada, porém prejuízo de R$ 52,05/tonelada. O resultado indica que a operação pode cobrir parte dos custos correntes, mas não remunerar plenamente depreciação, capital, terra e demais componentes do custo total.

Produtividade e Rentabilidade

Produtividade Agrícola versus Rentabilidade Econômica


Gráfico 2: Produtividade agrícola versus Rentabilidade econômica

Fonte: Projeto Campo Futuro CNA/Senar. Elaboração: Pecege/CNA.

O gráfico evidencia que produtividade elevada não se traduz automaticamente em maior rentabilidade. Nos oito painéis, a produtividade média foi de 80,88 t/ha, mas o resultado econômico médio foi negativo em R$ 32,04/t. O volume produzido por hectare é apenas uma dimensão do desempenho; a rentabilidade também depende do ATR, do preço recebido, da longevidade do canavial, da eficiência logística e da estrutura de custos.

Análise por Praça

Diagnóstico Econômico Regional: Barretos, Araraquara e Batatais


Barretos — 90 t/ha | Prejuízo: R$ 52,05/t

A praça alcançou 90 t/ha, o maior rendimento da amostra, além de 135 kg de ATR/t e receita de R$ 145,80/t. Ainda assim, apresentou prejuízo de R$ 52,05/t, devido ao custo total de R$ 197,42/t. A menor longevidade modal, de quatro cortes, aumenta a frequência de renovação e reduz a diluição dos custos de formação. Também pressionam os resultados a remuneração da terra, os tratos de soqueira, a colheita e o aumento do raio médio de transporte para 35 km, decorrente do redirecionamento da produção após a hibernação de uma usina da região. Nesse contexto, o ganho de produtividade não foi suficiente para compensar a elevada necessidade de recursos por tonelada produzida.

Araraquara — 75 t/ha | Prejuízo: R$ 58/t

A região apresentou o pior resultado entre as praças representadas no gráfico. Além da produtividade inferior à média, o ATR de 120 kg/tonelada limitou a receita a R$ 126/tonelada. Ao mesmo tempo, o custo total atingiu R$ 184,34/tonelada, pressionado principalmente pela remuneração da terra, pelo plantio, pelos tratos de soqueira e pelo capital de giro. A margem bruta permaneceu positiva, indicando cobertura do custeio diretamente associado à produção, mas a receita não foi suficiente para cobrir o COT (Custo Operacional Total), nem remunerar terra e capital.

Batatais — 85 t/ha | Resultado: –R$ 21/t

Apresentou a segunda maior produtividade, de 85 t/ha, mas registrou resultado negativo próximo de R$ 21/tonelada. A principal limitação foi a qualidade industrial: o teor de ATR, de 114,75 kg/tonelada, foi o menor entre os painéis. Dessa forma, mesmo com elevada produção física por hectare, a quantidade de açúcar total recuperável gerada por tonelada de cana foi menor, restringindo a receita. O caso mostra que a produtividade deve ser analisada em conjunto com o indicador de toneladas de ATR por hectare, que combina rendimento agrícola e concentração de açúcares e representa melhor o potencial de geração de receita.

Análise por Praça

Diagnóstico Econômico Regional: Cianorte, Nova Alvorada do Sul, Penápolis, Pirassununga e Nova Olímpia


Cianorte — 82 t/ha | Resultado: –R$ 30/t

A produtividade de 82 toneladas/ha ficou acima da média, mas o prejuízo alcançou aproximadamente R$ 30/tonelada. A região é caracterizada por produtores de menor escala, com maior dependência da terceirização de operações agrícolas. Essa condição pode elevar o custo unitário, reduzir o poder de negociação e dificultar a diluição dos custos fixos. Colheita, remuneração da terra e tratos de soqueira estão entre os principais componentes do custo regional. Portanto, apesar da produtividade satisfatória, a escala e o modelo operacional reduzem a capacidade de transformar rendimento agrícola em resultado econômico.

Nova Alvorada do Sul — 80 t/ha | Resultado: –R$ 51/t

A particularidade dessa praça é que a pressão econômica já ocorre no curto prazo. O COE de R$ 131,98/tonelada superou a receita de R$ 127,40/tonelada. A colheita respondeu pela maior participação no custo total, seguida pelos tratos de soqueira e pelo arrendamento. O transporte também pesa sobre a maioria dos fornecedores, enquanto aqueles que recebem subsídio logístico das usinas apresentam resultados menos desfavoráveis. Nesse cenário, aumentar a produtividade sem reduzir o custo das operações pode elevar o volume produzido sem solucionar a perda por tonelada.

Penápolis — 80 t/ha | Resultado: –R$ 12/t

Demonstra que uma estrutura operacional mais enxuta pode reduzir a perda econômica mesmo sem produtividade excepcional. O COE foi de apenas R$ 42,65/tonelada, influenciado pela modalidade de comercialização por ATR fixo, na qual a maior parte dos fornecedores não assume diretamente o custo de colheita. Entretanto, a remuneração da terra possui participação expressiva no custo total, impedindo que as margens operacionais positivas se convertam em lucro econômico.

Pirassununga — 80 t/ha | Resultado: –R$ 34/t

Com produtividade de 80 t/ha igual à média, a receita cobriu o COE e o COT, porém não foi suficiente para remunerar integralmente a terra e o capital. O relatório também alerta que negociações no mercado spot podem comprometer a longevidade do canavial quando as operações de corte, carregamento e transporte são realizadas com menor controle técnico. Danos à soqueira reduzem o potencial de rebrota, encurtam o ciclo produtivo e aumentam o custo anualizado de formação do canavial.

Nova Olímpia — 75 t/ha | Resultado: +R$ 2/t (Lucro)

Foi a única praça que apresentou lucro, próximo de R$ 2/tonelada, apesar de não apresentar a maior produtividade. A produtividade modal foi de 75 t/ha, combinada com ATR de 134 kg/tonelada, receita de R$ 144,72/tonelada e custo total de R$ 142,53/tonelada. O resultado mostra que uma produtividade moderada pode ser economicamente superior quando acompanhada por elevada qualidade da matéria-prima e uma estrutura de custos compatível com a receita. Os tratos de soqueira, a colheita e o plantio continuam sendo itens relevantes, mas não atingem níveis capazes de anular a remuneração proporcionada pelo ATR.

Relações Fundamentais

Rentabilidade da Cana-de-Açúcar: Cinco Relações Fundamentais


Sob a ótica agronômica e econômica, a rentabilidade da cana-de-açúcar deve ser analisada a partir de cinco relações principais:

Produtividade e ATR

Uma lavoura pode produzir muitas toneladas de cana por hectare, mas gerar receita limitada quando o teor de ATR é baixo. Por isso, toneladas de ATR por hectare são um indicador mais completo do que apenas toneladas de cana por hectare (TCH).

Produtividade e Custo por Hectare

Ganhos produtivos obtidos com maior uso de insumos, mecanização, irrigação ou operações adicionais somente são vantajosos quando o acréscimo de receita supera o custo incremental.

Longevidade do Canavial

Quanto menor o número de cortes, menor a diluição do custo de formação. Em Barretos, por exemplo, o painel considera quatro cortes, enquanto outras regiões trabalham com cinco ou seis. Mesmo com alta produtividade, uma renovação mais frequente pode aumentar significativamente o custo por tonelada.

Logística e Modelo de Comercialização

A realidade da maioria dos produtores de cana-de-açúcar, na qual os custos de corte, carregamento e transporte não são incorporados diretamente ao sistema de produção. Isso tende a reduzir o COE, mas não significa, necessariamente, maior eficiência produtiva ou rentabilidade econômica.

Terra e Capital

Margens operacionais positivas não significam necessariamente lucro. Barretos, Batatais, Cianorte, Penápolis e Pirassununga cobrem o Custo Operacional Total, mas não remuneram integralmente o custo de oportunidade da terra e do capital. Isso permite a continuidade da operação no curto prazo, porém compromete a sustentabilidade econômica no longo prazo.

"Em síntese, produzir mais não é suficiente. É necessário produzir com qualidade e a um custo compatível com a receita. O objetivo gerencial não deve ser apenas maximizar toneladas por hectare, mas ampliar a produção de ATR por hectare, preservar a longevidade das soqueiras, reduzir perdas agrícolas e industriais e controlar os custos de plantio, tratos, colheita, transporte, arrendamento e capital."

Conclusões

Conclusões e Recomendações para os Fornecedores de Cana-de-Açúcar


Os resultados dos oito painéis do Projeto Campo Futuro mostram que a rentabilidade da cana-de-açúcar depende do equilíbrio entre produtividade, qualidade da matéria-prima, longevidade do canavial e estrutura de custos. A produtividade, isoladamente, não garante retorno econômico, principalmente quando os gastos com formação, colheita, transporte, arrendamento, terra e capital permanecem elevados.

A análise também evidencia que margens operacionais positivas não significam, necessariamente, lucro. Em várias regiões, a receita cobre os custos mais imediatos da atividade, mas não remunera integralmente os ativos e os fatores de produção, o que compromete a sustentabilidade econômica no longo prazo.

Diante desse cenário, os fornecedores de cana-de-açúcar devem priorizar indicadores como produção de ATR por hectare, custo por tonelada, custo por quilograma de ATR, número de cortes e eficiência logística. Recomenda-se que adotem uma gestão integrada, com revisão periódica dos contratos de arrendamento e serviços, planejamento da renovação do canavial, controle técnico das operações terceirizadas, compra programada de insumos, monitoramento do custo por tonelada e por quilograma de ATR e comparação dos próprios indicadores com os painéis do Projeto Campo Futuro. A prioridade deve ser elevar a produção de ATR por hectare e reduzir o custo econômico por unidade produzida, sem comprometer a longevidade e a qualidade do canavial.

Indicadores Prioritários

Produção de ATR por hectare, custo por tonelada, custo por kg de ATR, número de cortes e eficiência logística.

Gestão de Contratos e Insumos

Revisão periódica dos contratos de arrendamento e serviços, compra programada de insumos e controle técnico das operações terceirizadas.

Planejamento da Renovação

Planejamento adequado da renovação do canavial para preservar a longevidade das soqueiras e diluir os custos de formação ao longo de mais cortes.

Monitoramento e Benchmarking

Monitoramento contínuo do custo por tonelada e por quilograma de ATR e comparação dos próprios indicadores com os painéis do Projeto Campo Futuro.

Informações Institucionais


Realização

  • Projeto Campo Futuro
  • CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil
  • Senar – Serviço Nacional de Aprendizagem Rural

Cadeia Produtiva

  • Cana-de-açúcar — Centro Sul

Referência

  • Levantamentos Campo Futuro — Safra 2026/27
  • Dados coletados até junho de 2026
  • Agosto / 2026

Uso e Reprodução

Reprodução permitida desde que citada a fonte: Projeto Campo Futuro – CNA/Senar.